QuatroTantos é o novo quadro da revista Philos. Idealizado por Alessandro Araujo, questiona quatro formas de se usar a literatura, amontoa e troca palavras para lembrar dos Quatro Cantos de Olinda, procurando vozes atuais e as suas oralidades, linguagens, estruturas narrativas e estéticas. Afinal, o quadro vai além do enquadramento e pode avolumar ou intensificar, de tal maneira que inúmeros tantos e por tantas vezes diversas fabulações estão por aí. QuatroTantos é um espaço para alastrar e descentralizar a literatura contemporânea.
A primeira entrevistada é Flávia Santos, poeta e artista visual, autora de Corpo Lúcido (2024), onde percebemos a capacidade dela em transformar elementos simples em significantes profundos. São textos em pedra brusca, ladeados por multidões letárgicas em redenções distantes. Stephanie Borges, poeta e tradutora, diz que “os versos concisos de Flávia mostram uma percepção delicada dos momentos em que o desejo e o carinho falam dos outros caminhos do corpo”, as impossibilidades movem Corpo Lúcido.
Flávia, em algumas livrarias do país a literatura produzida por pessoas LGBTQIAP+ ficam em prateleiras classificadas como literatura LGBT ou de representatividade. Na sua prateleira, você aplicaria essa classificação?
Há duas questões aí: uma é mercadológica – segmentar o produto livro em nichos que podem aumentar as vendas, me parece uma solução bem simples para não abordar a questão. Não, na minha prateleira não teria essa classificação. A luta LGBTQIAP+ deve ser encarada de forma política: com leis, políticas públicas e representatividade nas casas em que são definidos os rumos do país.
Não à toa, São Paulo é desigual e múltipla. No sentido bairro-centro ou centro-bairro, qual cidade é protagonista do Corpo lúcido?
Corpo Lúcido é protagonizado por ambos sentidos, alguém que viveu as duas dinâmicas e não se adaptou a nenhuma, alguém estrangeiro (estranho) nos dois lugares – um não pertencimento.
No poema Teoria dos microconflitos:
– tô na janela vendo a vida chover. Não tenha medo, a
[janela está fechada].
O que faria você abrir a janela para ver a vida chover?
Esse verso trata de um lugar real. Morei em um apartamento no centro que não tinha varanda, era uma parapeito e eu ficava ali sentada a despeito do perigo de cair do terceiro andar. Viver é perigoso.
Qual obra fez você chorar pela última vez?
“Num samba curto”, de Paulinho da Viola (1971).
Flávia Santos, poeta e artista visual, formada em Letras pela Universidade de São Paulo e graduanda em Artes Visuais pela Unesp – Universidade Estadual Paulista. Flávia foi vencedora do Programa Nascente da USP na categoria texto em 2007 com o livro Dissoluções do Como, em 2010 esse livro foi publicado pela editora Annablume. Em 2023 participou da exposição Mãos: 35 anos da mão afro-brasileira. No ano passado lançou seu segundo livro de poemas, Corpo Lúcido, pela editora Diadorim, que também foi editado pelo escritor Jeferson Tenório. No dia 31 de julho, a poeta estará na 23ª edição da Flip – Festa Literária Internacional de Paraty, no projeto inédito Caprichos & Relatos, que ocupará um palco no Café da Flip, celebrando a poesia a partir de Paulo Leminski, autor homenageado da edição.
Alessandro Araujo é autor de Rabada (2024) e Longe de todas aquelas nuvens (2020). É colaborador dos jornais Rascunho e Le Monde Diplomatique Brasil, da revista Philos e da editora Selvageria. É especialista em Língua Portuguesa e Literatura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.